Um até sempre.

Não queria e continuaria a não querer se fosse noutro dia, mas fui. Avancei na direção daquele autocarro e deixei-me levar para onde todos queriam que eu fosse. O meu lado emotivo não estava pronto para tal. Sentia que a qualquer momento me podia deixar ir abaixo. Assim que entrei naquele espaço, a minha cabeça parecia estourar. Queria vê-los. Queria estar ali. Queria tocar-lhes. Queria brincar com eles. Avançamos e, no primeiro quarto, estavam quatro crianças: duas meninas e dois meninos. Uma das meninas, tinha o meu nome. Foi como um choque. E era igual a mim quando nasci. Algo me dizia que fiz o certo em deixar-me ser levada para ali. Ela dormia tão descansada, que quase posso afirmar que lhe conseguia ver o peito a subir e descer, conforme respirava. Lá, num dos cantinhos, estava um dos meninos, com o dedo na boca, como se fosse a sua chupeta. Como eu gostaria que eles tivessem uma família. Mas a família deles é aquele lugar. É ali que pertencem agora. Conforme íamos avançando e víamos mais crianças, queria poder tocar-lhes e queria que falassem comigo. Lembro-me de ver um menino sorrir-me no berçário. Foi dos momentos mais fofos da manhã. Até atingirmos a zona da creche. O M, o M, a I e a A. Eram novamente dois meninos e duas meninas, cada um com os seus dois anos. Assim que começámos a falar com eles, a resposta foi imediata e não havia nada que impedisse os sorrisos nas nossas caras. Estávamos encantados com a situação que estava à nossa frente. E, nestas crianças, pudemos tocar. Pudemos brincar com eles. Pudemos conversar com eles. Um dos meninos, esteve no meu colo. Quando o vi, confesso que não queria pegar nele, porque tinha medo de me afeiçoar demasiado. Mas peguei. Assim que o segurei nos meus braços, foi como se o mundo à volta não existisse. Era a criança mais fofa que alguma vez vi. Ele é feliz. Aquele lugar constitui a sua casa, a sua família e a sua felicidade. O seu sorriso não enganava ninguém. Ele estava ali, porque a mãe falecera com trinta anos de idade e o pai é toxicodependente e encontra-se em reabilitação, para, quem sabe, um dia, poder voltar a ver o seu bebé. É um menino tão cuidadoso, tão bonito, tão... sem palavras que o descrevam. E, apesar de ter corrido os braços de quase toda a gente, afeiçoou-se a uma amiga minha. Foi o pior momento da manhã. Assim que a hora de voltarmos para a nossa escola chegou, atingiu-nos a todos, sem exceção. O bebé não queria deixar a minha amiga vir-se embora. Não a largava e começou a chorar nos braços dela. Vê-lo ali, tão frágil, fez-me dar conta de que aquelas crianças precisam de alguém, precisam de uma família, precisam de uma casa, de sair, de brincar. Precisam de amor. Os gritos e o choro dele ecoavam por todo o espaço conforme avançávamos para nos virmos embora e tudo o que queríamos era voltar para trás e abraçá-lo para o que o choro cessasse. Foi o melhor menino que, na sua situação, alguma vez conheci. Foi das melhores experiências que já tive. Foi das coisas mais marcantes da minha vida. Acima de tudo, foi algo que eu gostaria de voltar a fazer, no entanto, tenho a certeza de que voltaria a recusar se mo dissessem. Não estava emocionalmente pronta para o que aconteceu e deixar aquele menino para trás foi das coisas que mais me doeu. Mas ele está feliz, não está? Prometam-me que sim. Que Deus o proteja! Que tomem conta dele! Que o façam ser ainda melhor! Porque, como ele, não há igual. E aquilo que vivemos hoje, não foi um adeus para com aquelas crianças. Foi um até já.
Um até sempre.
Obrigada ao IAC por esta oportunidade e também à minha escola, ESVV.


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