Eu sou a única, irmão
Ninguém te pode julgar por desistires daquilo que um dia te fez feliz. Ninguém te pode julgar por quereres parar com o sofrimento. Ninguém te pode julgar por abandonares quem já não sente a tua falta. Afinal, se as pessoas sentissem a nossa falta, não seria óbvio que não nos deixavam? Se sentissem a nossa falta, não corriam atrás? Ninguém te pode julgar por quereres encontrar uma escapatória à dor. Ninguém te pode julgar por sentires saudades de quem já não sente a tua. Ninguém te pode julgar por quereres curar as tuas feridas. Afinal, quem magoa, quem foge, quem sai das nossas vidas, um dia deixa de fazer falta. Muitas vezes, nem uma escapatória encontrámos. Muitas vezes, nem existe uma cura. Muitas vezes, não há nada que te faça desaparecer da minha mente. Muitas vezes, não há nada que apague as memórias que tenho tuas. Muitas vezes, não há nada que mude o que me fizeste sofrer. Muitas vezes, nem sei onde pertenço. Perco-me de mim. Perco a razão. Perco a sensação de ter alguém que fazia tudo por nós. Perco a sensação de acordar e saber que o teu abraço está à minha espera. Perco. Neste jogo, não há vencedores. Afinal, quem sofre, ganha alguma coisa? A dor é tanta, que até as palavras já não me querem fazer companhia. É tão grande que já nem me apetece sorrir. É tão grande que já nem tenho inspiração para fazer o que gosto. É tão grande que já nem sei de mim. Não existe o antes. Não existe o agora. Nem o depois. Acabou. Tudo tem um ponto final e, quem sabe, talvez tenha chegado o nosso. E só eu sei o quanto me dói escrever isto. O quanto me dói libertar o que estou a sentir. Só eu sei o quanto dói estar longe. Só eu sei o quanto dói não haver nada que possa fazer. Mas no fim, acho que só eu sei o quanto dói sentir a tua falta. No fim, só eu é que estou a sentir dor. Afinal, tu estás feliz, não é? Tu tens tudo o que te faz feliz, então para que precisarias de alguém como eu? Tens tudo o que te faz feliz, então para que terias saudades minhas? Tens tudo o que queres e agora sei que não sou eu. Tens tudo o que te faz feliz e agora sei que não te faço feliz. Tens tudo o que te diverte e agora sei que não era eu. Tens tudo o que te entende e ouve e agora sei que não era eu. Afinal, terei sido eu alguma vez? Fui eu alguma vez? Alguma vez fui a razão do teu sorriso? Alguma vez te diverti? Alguma vez te fiz falta? Alguma vez te entendi e ouvi? Alguma vez fui eu? Creio que me enganei o tempo todo. Nunca fui nada mais do que um simples botão no comanda que só clicavas quando já nada te interessava na televisão. Nunca fui nada mais do que alguém a quem recorrias quando mais ninguém te queria ouvir. Nunca fui a tua primeira opção, pois não? Nunca fui aquela que procuravas para contar as novidades. Nunca fui aquela que procuravas para chorar. Nunca fui aquela que procuravas só porque sim. Nunca fui aquela que procuravas porque tinhas saudades. Nunca fui a tua primeira opção, nem a segunda. Fui sempre a última e talvez hoje entenda isso. Por mais que custe, talvez hoje ou amanhã entenda isso. E talvez mais tarde, te arrependas disto. Talvez te arrependas de me teres deixado. Talvez te arrependas de me teres feito última opção. Talvez te arrependas de teres desconfiado de mim, nem que por um minuto. Talvez te arrependas de não teres tido saudades minhas. Talvez te arrependas de não ter encontrado tanta gente igual a mim. Talvez te arrependas de me teres perdido. Talvez te arrependas de me ter magoado. Ou talvez nada disto aconteça. Mas de uma coisa eu tenho a certeza: fui enganada. Nunca fiz de ti segunda ou última opção. Sempre foste a minha primeira opção. Para tudo. E para nada. Procurava-te para contar o que corria bem. Procurava-te para contar o que estava mal. Procurava-te porque tinha saudades tuas. Procurava-te porque precisava do teu abraço. Procurava-te porque precisava das tuas palavras. Procurava-te porque me divertia a teu lado. Procurava-te porque me fazias feliz. Mas afinal, não era recíproco. Nada acontecia igual em ti. Sempre procurei sozinha, não foi? Foi como se te tivessem feito esquecer tudo e isso jamais perdoarei. Esqueceste as vezes em que falava contigo até às tantas? Esqueceste as anedotas que contava para te ouvir rir? Esqueceste as vezes em que chamavas por mim quando precisavas de alguém para te aconselhar? Esqueceste o valor dos nossos abraços? Esqueceste cada momento de diversão que tivemos juntos? Esqueceste aquele almoço? Esqueceste os carrinhos? Esqueceste o baile? Esqueceste cada momento em que estive contigo? Porque se o fizeste, não mereces nada. Porque eu não esqueci. Lembro-me de tudo como se fosse hoje. Lembro-me de tudo como se tivesse sido a primeira e última vez. Lembro-me de tudo como se fosses único na minha vida. Lembro-me de tudo porque me fizeste feliz, porra! E tu? O que é que tu lembras de tudo o que vivemos? Tudo o que és capaz de fazer, no fim de tudo o que já vivemos, é desconfiar de mim? É abandonar-me? É deixar-me ir sem uma palavra que me faça ficar? Afinal, o que é que eu era para ti? O que é que eu sou para ti? Não sou algo que possas magoar assim. Não sou e não vou permitir que o faças. Fiz tudo por ti e fazia tudo novamente. Mas agora está a doer tanto, que duvido tanto do que fiz. Eu não merecia isto. Não merecia que me tivessem feito isto. Não merecia que tu tivesses feito isto. Não merecia. Adorei-te, todos os dias, todas as horas, minutos e segundos, incondicionalmente. Adorei-te com tudo o que tinha. Dei-te tudo de mim. E é tudo isto que tenho como recompensa? Só te peço que pares. Abre os olhos. Pensa. Achas que fui eu? Achas que algum dia teria sido eu? Nem no meu subconsciente algum dia isso me passou pela cabeça. Não estarás cego com o que te rodeia? Não estarás enganado? Não fui eu. E vou provar-te o quão errado estás. E vais arrepender-te. Escreve isto. Vais arrepender-te. Porque acredita. Nunca ninguém te adorou, te adora, te vai adorar tanto como eu. Nunca ninguém vai ser para ti o que eu fui e sou. Mas sabes? Quero que te arrependas disso. De teres pensado que podia haver alguém igual a mim! Porque não há! Eu sou a única, irmão. Eu sou a única. E tu acabaste de me perder. Acabaste de perder aquilo que eu acredito que se podia ter tornado no melhor de ti, porque, afinal, eras o melhor de mim. Mas agora acabou. Acabou, entendes?

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