Nunca voltarás.
Foste. E nunca
mais voltaste. Sei que não voltas. Nunca voltarás. Não porque não possas, mas
porque não queres. E, às vezes, tenho a certeza de que também não quero. Nunca sei
se estaria pronta a enfrentar o passado. O passado que te envolve. O passado
que foste tu. Dizem que nunca devemos viver agarrados ao passado, mas é difícil
fazê-lo quando não tivemos todas as respostas. Quando as dúvidas ficaram a
pairar. Há tanta coisa que ficou por explicar. Tanta coisa que ficou por dizer.
Tem dias em que já não me importo, já não faz diferença. Mas há outros… outros
em que dói. Dói porque não gosto de ficar sem resposta, não gosto de ser
enganada, não suporto mentiras e não aceito abandonos espontâneos. E tu fizeste
tudo isso. E ainda hoje me guio pelo que és, ou eras, para avaliar todos os que
me rodeiam. Porque achava que eras perfeito. Que tinhas tudo o que qualquer ser
humano devia ser. O que era suposto cada um de nós ser. Achei que tinhas sido
feito à medida daquilo que eu precisava na minha vida, como um amigo. Eras companheiro,
fiel, preocupado, presente. Achava eu. Enganaste-me tão bem que, hoje, estou
sempre à espera do primeiro passo em falso de cada pessoa que conheço. Do primeiro
passo que me mostre que é exatamente como tu. Procuro-te em cada pessoa que
conheço, porque sinto falta do que fomos e porque me protejo daquilo que nunca
pensei que fosses. Não julgo, porque também tenho os meus defeitos. E tinhas
direito a tê-los também, só não tinhas o direito de os esconder como fizeste. Não
tinhas o direito de me deixar como fizeste. E há marcas que ficam. Há coisas
que não se apagam. Que ficam como se nem o banho mais longo as tirasse de mim. Lembro-me
de tudo. Do bem e do mal. E sei que, talvez, um dia, se quisesses voltar, eu te
ia pedir todas as explicações que falharam. Porque preciso de fechar este
ciclo. Preciso que a minha vida siga sem que sejas o exemplo que procuro em
toda a gente. Já achei que ias voltar. Que ias procurar-me. Que ias contar-me o
que aconteceu. O que nos aconteceu. Mas talvez para ti eu nunca tenha existido.
Talvez eu tenha sido só um pião no teu jogo. Talvez tenha sido a tua tentativa
de saber até onde uma pessoa é capaz de ir para atingir limites. Talvez tenha
sido a tua vontade egoísta de provar aos que falavam de ti que eras diferente
do que pensavam. Talvez tenha sido o teu orgulho que não te tenha trazido de
volta. Ou talvez a tua vontade de fama e de sucesso te tenham toldado a cabeça.
Talvez te tenham dito que eu era um bicho malvado que te ia destruir. Mas
adivinha: foste tu quem me destruiu. E hoje só peço que apareça alguém capaz de
reconstruir aquilo que deixaste ficar. Porque é tudo vazio e um caos. É tudo o
que resta.
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