A memória...
Parece-me como o fim do caminho. É algo que tenho de deixar para trás. Tem de haver um novo começo. Preciso disso. É algo que necessita de ser posto de parte. É algo que magoa, dói, faz sofrer. É algo que não se suporta por muito tempo. Não há muito tempo. A vida é curta. É o anteontem, o ontem e o hoje. Quem sabe de que é feito o amanhã? Quem sabe o que irá acontecer? Quem vamos conhecer, quem vamos odiar, quem vamos amar, quem vamos criar, quem vamos esquecer... Quem sabe o que nos espera? Quem sabe o que será a primeira coisa a fazer ao acordar? Ou a última coisa antes de almoçar? São coisas que podem marcar-nos. É uma marca. É como uma nódoa negra. Ou pode até mesmo ser uma cicatriz. Profunda ou quase invisível. Seja aquilo que for, está ali. Está ali e não vai embora. São aquilo a que chamamos de memórias. São aquelas que tanto podem existir hoje, como ser esquecidas amanhã. São aquelas que podem ser formadas hoje, ou apenas amanhã. São aquelas que são do passado, do presente e do futuro. São marcas que jamais nos deixam, mesmo que sejam esquecidas, porque um dia iremos lembrar que esquecemos aquilo. São presas a nós, porque não as queremos deixar. Não queremos perder aquele pedaço de nós. Aquele pedaço que foi nosso, nem que por um segundo. Aquele pedaço que mudou o nosso dia. Ou até mesmo o pedaço que mudou a nossa vida. Ou quem sabe o pedaço que nos colocou na posição em que nos encontramos agora. Porque estamos aqui? Porque fizemos isto ou aquilo? Porque continuo a lembrar-me disso? São as memórias. São aquelas que não largaram a nossa pele, o nosso instinto, o nosso coração, a nossa mente e a nossa alma. São aquelas que, mesmo que a pessoa negue, vão sempre acontecer. Ainda te lembras da discussão que tiveste ontem com a tua mãe? Ou do dia em que o teu pai foi internado? Ou do dia em que a tua irmã te ignorou? Ou da altura em que um professor resmungou contigo? Do dia em que o patrão te despediu? Do dia em que, por algum motivo, aquele pedaço te marcou? Ainda te lembras do dia em que percebeste que tinhas esse poder de guardar os acontecimentos em ti? Ainda te lembras de como descobriste a existência das memórias? Ainda te lembras do dia em que agradeceste por as ter? Ou do dia em que odiaste tê-las? Ainda te lembras? Eu sei que a resposta é e será sempre afirmativa. As memórias são aquilo de que és feito. As memórias são as tuas experiências de vida, o teu conhecimento, as tuas quedas e desamparos, os teus erros, as tuas vitórias, as tuas guerras. As memórias são aquilo que te constrói. São aquilo que fazem de ti a pessoa que és hoje, que foste ontem e que serás amanhã. Ou vês alguma razão para uma criança que foi maltratada em criança ser fria no presente sem ser as memórias? Ou a razão porque alguém precisa de muito carinho porque foi mimada em pequena sem ser por causa das memórias? As memórias são o que tu és. As memórias são o teu ser. As memórias... A memória és tu. Tu és a memória. Tu tens as tuas memórias. Tu podes criar memórias para os outros. Tu podes criar as tuas próprias memórias. Tu comandas aquilo que fazes com elas, sem esquecer que vão estar sempre presentes. A memória é aquilo a que menos ligamos e que, se calhar, merecia mais atenção. A memória é o ser humano. A memória és tu. A memória é ela. A memória é ele. A memória somos nós, vós e eles. A memória são os acontecimentos. A memória é tudo. A memória, não é nada mais, nada menos, do que aquilo que percorre o caminho da vida a teu lado, para te agarrar a algum coisa, sempre. Quando olhares o chão e encontrares pegadas que não são as tuas, é aí. É aí que está a memória. Saberás que ela está presente. A memória é aquilo que sempre irá estar presente. A memória é o enigma dos enigmas. E tu? O que achas? Não achas que cabe a ti pensar melhor sobre o poder que este pequeno pedaço tem sobre ti? Não abandones a memória, pois ela nunca te abandonará.
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