Desafio 1: O maldito cancro

O desafio anónimo que lancei nas redes sociais há algum tempo, tem, finalmente, um participante. Não é revelada a identidade, tal como prometido. Fica  apenas o testemunho de alguém que sofreu uma perda. Alguém que viu um ente querido partir. Alguém que, acredito, não consiga ouvir a palavra "cancro". Sei que deve custar. Já perdi alguém também por causa do cancro. Todos os dias, penso, alguém parte por causa dele. Mas cabe a nós, àqueles que ficam, ser fortes e superar. Cabe a nós, aprender com a experiência. Cabe a nós, não desistir de lutar. Cabe a nós, relembrar, sempre, alguém que perdemos. E, com isto, aqui fica o testemunho. Desafio 1: aceite. 

"Passo por aqui para deixar o meu testemunho sobre a maior mudança da minha vida.
Há alguns anos, perdi uma das pessoas mais importantes para mim, e que mais me marcou: o meu avô.
Antes de tudo acontecer não conseguia ter noção do quanto a minha família era importante para mim, talvez por ser ainda imatura demais. Mas chegou a altura em que tudo mudou. Aquela terrível doença que tira a esperança a qualquer um e causa um sofrimento enorme, surgiu. O maldito cancro. Pensei que se resolveria. Ele era forte. O suficiente para eu acreditar que nunca me deixaria sozinha.
Infelizmente a esperança desvaneceu, no momento em que lhe foi dado um “prazo de validade”. 6 Meses. 6 Meses de muito sofrimento. 6 Meses de muita aprendizagem. 6 Meses que nunca foram suficientes para aceitar a ideia que ele iria partir.
Durante os 6 meses assisti à lenta degradação pela qual passou. Aos vários pedidos de ajuda. Aos vários pedidos de desculpa. E até a verdadeiras gargalhadas.
Foram dias esgotantes. Senti-me impotente. Inútil. Quando ele mais precisava não o podia ajudar.
Mas não foram só dias maus. Existem também muitos alegres. Com o seu sorriso maroto no rosto nos fazia rir a todos com as suas histórias.
Desses 6 meses guardei muita coisa. Muitos momentos. Mas guardei principalmente uma frase dita por ele “Não me deixes sozinho, eu não quero ficar sozinho”. Pode ser uma frase banal para qualquer um, mas para mim tornou-se a frase mais importante que poderei ouvir. Percebi qual era o medo dele. Por trás do sorriso que nos dava tentando transmitir que estava tudo bem ele escondia o seu medo. Ficar sozinho.
Tenho orgulho de dizer que até ao fim nunca o deixei sozinho. Até ao dia que me despedi dele. E até hoje lhe prometo nunca o deixar sozinho.
Foi nesses 6 meses que me vi obrigada a crescer. A ganhar a maturidade que me faltava. Foi nesses 6 meses que aprendi a dar valor ao real significado de família. Aprendi a cuidar daqueles que um dia já me cuidaram.
Hoje relembro o meu herói com um sorriso. Evito derramar qualquer lágrima pois ele não gostaria. Hoje vivo com o medo de voltar a sentir o vazio que senti e ainda sinto com a partida dele.
Hoje sou eu quem repete inúmeras vezes “não me deixes sozinha, eu não quero ficar sozinha”. Apenas para sentir que ele nunca me deixará.

Hoje partilho com ele o seu maior medo: ficar sozinha."


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