As palavras soltam-se

Sento-me junto à janela, porque aqui está fresco. O sol lá fora queima demasiado e não o aguento muito tempo. As palavras soltam-se. Assim como o meu gato adormece. Tão depressa como um carro numa autoestrada. Tão veloz como um cavalo de corrida. Tão fortes como um lutador de boxe. Tão poderosas como cada ser superior que nos rodeia. São palavras de medo. De fúria. De angústia. De alegria. De raiva. De desilusão. De compaixão. De paz. De carinho. De amor. De guerra. Quantas palavras não se soltam, neste momento? Tantas e tão poucas. Tantas e tão pequenas. Tantas e sem emoção. É preciso sentir. Sentir o que dizemos e não só o que fazemos. É preciso apreciar cada palavra, porque nela pode estar o Mundo. As palavras não são mais do que nossa sobrevivência em sociedade. De que serviria ter a carta de condução, se não conseguíssemos falar com um vendedor de automóveis? De que serviria a escola, se não conseguíssemos falar com os professores? De que serviria a família, se não conseguíssemos expressar-nos dentro dela? As palavras são um elemento tão forte na sociedade, na vida, no Mundo. Sem palavras de outras línguas, jamais poderíamos conhecer outras culturas. Sem palavras para designar os objetos, tudo seria apenas "coisas". Se até os mudos conseguem expressar-se, porque não havíamos nós de fazê-lo quando temos melhores meios para isso? A comunicação é o mais importante. Lembrem-se de expressar sempre o que sentem, seja bom ou mau. É essencial. Há uns anos, os nossos antepassados lutaram pela liberdade de expressão. Então, não podemos ter medo de o fazer. Exprimir o que sentimos. Mostrar que também sentimos. Mostrar que também compreendemos, gostamos, ouvimos... É preciso mostrar que temos algo dentro de nós e não somos vazios. Seja o que for. Lamentavelmente, nem sempre vai estar lá alguém para nos ouvir. No entanto, não deixes de o fazer. Nem que seja para a tua almofada, ou para a porta de casa. Mas liberta o que está dentro de ti para ser dito. Precisamos de nos libertar das palavras que, um dia nos magoaram, ou até daquelas que nos fizeram felizes. Porque, a bem ou a mal, as palavras vão curar-nos. Vão curar o que quer que se sinta. E vão dar-nos vida, quando se tratar de algo bom. Vão mostrar-nos que vale a pena. Que podemos. Que queremos. Que sonhamos. Que sentimos. Vão ajudar-nos a entender não só os outros, mas também nós próprios. Porque as palavras fazem de nós aquilo que somos. Se formos mal educados, seremos vistos sempre assim. Se formos bem educados, seremos vistos como boas pessoas. Entre outras coisas que podem acontecer-nos. As palavras podem ser a nossa salvação, mas também a nossa condenação. E só nós sabemos que uso podemos dar-lhe.


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