Ainda há tanto para viver.

Um dia, uma criança veio ter comigo para desabafar algo que lhe fazia confusão. As amigas queriam morrer. Mas, afinal, o que é isso de uma criança com tão pouca idade estar a dizer aos amigos que quer morrer? Que ideias é que estão a ser passadas a esta geração? Isso assusta-me. Tenho familiares da mesma idade e mais novos e como será possível imaginá-los a quererem morrer? Um sentimento terrível. Será que eles pensam no mundo que os rodeia? Será que pensam naquilo que é a felicidade de chegar à maioridade? Será que pensam na felicidade de serem pais? Será que pensam, alguma vez, na felicidade de verem os seus netos? Será que imaginam sequer como ficaria a família? Não, não acho que pensem. Se o fizessem, teriam mais juízo, certo? Eles não olham para o mundo. Tantas crianças internadas a lutar pela vida. Tantas crianças órfãs a lutar por uma família. Tantos sem-abrigo a lutar por uma casa. Tantos pobres a lutar por uma refeição. Tantas crianças abandonadas a lutar para fazer amigos. E nisso? Eles pensam? Não. Se alguma vez estivessem no lugar destas pessoas, questiono-me se continuariam com a ideia de morrer. Porquê? E para quê? Têm uma família, amigos, brinquedos, comida na mesa, casa e, acima de tudo, saúde. Então para quê? Porque é que desejam a morte quando têm uma vida espetacular? Porque é que desejam a morte se não sabem o que dela resulta? Porque é que pensam sequer nessa ideia se ainda têm uma vida pela frente? Não, não é estupidez. É infantilidade. É doença. É idiotice. Então, pensem antes naquilo que têm e não naquilo que querem ter. Uma mãe para nos pentear todas as manhãs. Um pai para nos levar à escola. Um irmão para jogar à bola. Uma irmã para brincar com bonecas. Um amigo para rir. Um inimigo para chorar. Uma vida para viver. Vocês têm tudo e ainda pedem para não ter nada? Pensem! Há sempre alguém que está numa situação pior que a nossa. Há sempre alguém sem família. Há sempre alguém a pedir para viver. Há sempre alguém. E, porque a vida é espetacular, há sempre algo que espera por nós aqui. Nunca lá. Não conhecemos a morte, então para quê desejá-la? Temos uma vida fantástica e que merece ser vivida, então vamos aproveitá-la. Morrer não é solução para ninguém, nem para nada. Morrer não traz felicidade. Morrer não traz amigos. Morrer não traz comida. Morrer não nos traz a vida. Morrer não presta. Se é isso que querem, força. Mas pensem. Pensem duas vezes antes de dizer o que dizem e fazer o que fazem. Pensem antes de deitar palavras ao ar. Pensem, porra! Sei que é complicado, porque são jovens demais. Mas pensem. Com a vossa idade, tudo o que queria era chegar aos 18 anos, sair, arranjar montanhas de amigos, divertir-me. Com a minha idade, só penso chegar aos 30 anos, ser mãe, estar casada, cansar-me, trabalhar. Então pensem. Pensem no futuro espetacular que está à vossa frente. E, por uma vez, pensem em algo bom, como a vida. Ainda há muito para ver. Ainda há tanto para explorar. Ainda há tanto para sentir. Ainda há tanto para viver.



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