Despeço-me de...

Querido... O que chamar-te?
Venho escrever-te para te lembrar de mim. Escrevo-te para que te lembres de quem sou. Escrevo para que te lembres de tudo o que já sofremos juntos. Escrevo para que te lembres de todos os bons momentos. Escrevo para que te lembres de cada palavra dita. Escrevo para que te lembres de cada sítio que visitamos juntos. Escrevo para que te lembres de como me tocavas. De como te toquei. Escrevo para que te lembres de como me olhavas. De como te olhei. Para que te lembres de cada beijo teu. Ou meu. Para que te lembres de cada abraço. Nosso. Para que te lembres de todas as vezes em que recorríamos um ao outro. Para que lembres as noites passadas em branco porque não nos cansávamos de falar um com o outro. Para que lembres os sorrisos. As gargalhadas. As lágrimas. As alegrias e tristezas. Escrevo para que te lembres do quanto confiava em ti. Para que te lembres de como sempre te coloquei em primeiro lugar. De como dei tudo de mim para ser tudo para ti. De como sempre te apoiei, no certo e no errado. De como sempre permaneci conectada a ti quando precisavas. De como sempre te protegi. De como sempre te defendi. De como sempre esperei por ti. De como sempre aguardava o reencontro, sendo forte, o mais forte que conseguia. Quero que te lembres do quão difícil era estarmos longe. Do quão difícil era não termos sempre aquele ombro amigo ao nosso lado. Do quão difícil foi enfrentarmos a distância. Do quão difícil era aguentar sem notícias um do outro. Quero que te lembres das saudades que tínhamos. Quero que te lembres de tudo, por favor. Por favor, lembra-te. Lembra-te de todas as vezes em que fui tudo para ti ou vice-versa. Lembra-te de como te tornei no meu mundo. Lembra-te de como sempre te dei o lugar prioritário na minha vida. Lembra-te. Por favor, apenas... Lembra-te de mim. De nós. Da amiga que tinhas. Do apoio que tinhas. Da proteção que tinhas. Das lágrimas que te sequei. Dos sorriso que te arranquei. Dos abraços que te dei. Por favor, lembra-te. Escrevo-te tudo isto, porque só quero que te lembres. E agora? Agora vê. Vê como me abandonaste. Vê em que estado me deixaste. Vê como fugiste de mim. Vê como te perdi. Vê como te perdeste de ti, depois de mim. Vê como ficas, sem mim. Vê como fico, sem ti. Vê as minhas lágrimas. Vê a minha dor. Vê os suspiros que contenho. Vê as forças que junto quando passo por ti e nada posso fazer. Vê aquilo que me estás a fazer. Vê aquilo que sinto agora. Vê aquilo em que te tornaste. Vê aquilo em que me tornei, depois de ti. Vê aquilo que sou agora que já não fazes parte de mim. Vê aquilo que sou depois de me deixares. Vê o maior erro da tua vida. Fizeste o maior erro da tua vida, quando me abandonaste. Lamentei, muitas vezes, tudo aquilo em que errei a teu lado. Lamentei a nossa última conversa. Lamentei as palavras todas erradas que já te disse. Lamentei, essencialmente, ter-te conhecido. Porque, depois de ter lamentado, não merecia estar como e onde estou. Depois de me ter desculpado, não merecia que me deixasses. Não merecia que me abandonasses como fizeste. Eu merecia uma explicação. Eu merecia. E, acima de tudo, merecia ainda te ter. Porque eu sempre dei tudo de mim para ti, mas a razão da nossa última conversa? Essa nunca quis saber de ti. Essa nunca deu nada por ti. Essa nunca te achou uma pessoa normal. Mas agora, diz-me. O que ganhei em ficar a teu lado? O que ganhei em dar tudo por ti? O que ganhei em ficar contigo? Nada. E aquela razão? Aquela razão tem tudo o que não devia ter. Mas a vida é tua e tu sabes o que fazes com ela e, lamento, já não ser parte dela. Lamento não ter tido tempo sequer para me explicar. Lamento não te ter deixado orgulhoso. Lamento ter sido uma desilusão. Lamento não ter sido o suficiente. Mas não lamento uma coisa: tudo o que fiz. Não lamento isso, porque sei que dei o máximo de mim, porque era tudo o que eu tinha para dar. Dei tudo de mim para alguém que me partiu o que restava do meu coração, mas não me importa. Não importa, porque sei que foi o suficiente. Foi o suficiente para te ter durante alguns anos. Foi o suficiente para te ter intitulado de melhor amigo. Foi o suficiente para te ter recuperado quando o fiz. Foi o suficiente para ter vivido o melhor da vida contigo. Eu fiz o suficiente e sei disso. E, por isso, não lamento o que fiz. Fiz tudo com o coração. Fiz tudo com o que tinha para dar. Usei tudo e de tudo. Fiz o que tinha a fazer. E, se te perdi, a culpa não foi só minha. Porque eu tentei. Tentei ter-te de volta. Mas não me ouviste. Nunca me ouviste. Nem me foi dada a oportunidade de me redimir. E isso não dependia de mim. Tu é que tinhas de querer ouvir-me. Tu é que tinhas de querer ter uma explicação. Mas não quiseste. Então, não fui só eu. E agora? Só lamento que já não me tenhas. E acabo por escrever para dizer-te que não me terás de volta. Mesmo que venhas lamentar a tua escolha. Mesmo que peças desculpa. Mesmo que tentes. Podes ter-me, mas nunca terás aquela que um dia te considerou melhor amigo e foi para ti a melhor pessoa que conseguia ser. Nunca terás de volta aquilo que já tiveste, mas terás uma pequena parte. Uma parte tão pequena que irás desejar nunca me ter deixado. Irás desejar nunca me ter trocado. Irás desejar ter ficado sempre ao meu lado. Aprendi uma coisa valiosa contigo e nunca vou esquecer. O "para sempre" sempre foi uma mentira. E, por essas e outras razões, despeço-me de ti com votos de que abras os  olhos para o mundo que te rodeia, porque nem tudo o que brilha é ouro.

E agora é hora de ir curar o meu coração e voltar a juntar as peças do puzzle que destruíste.

Com lágrimas de um doloroso adeus e um último abraço sem tempo para respirar, despeço-me de ti e daquilo que fui contigo. Até um dia, melhor amigo. 

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