Não passou de um sonho
Quero alguém. Ou talvez queira algo. Nem sei se quero realmente. As lembranças voltam como avisos em rodapé. Passam demasiado rápido, mas não são impossíveis de ler. Foi desde aquele dia que o meu mundo virou de pernas para o ar. Ou talvez não tenha sido esse, agora que vejo outro momento passar pela minha mente. Ou pelo meu coração. Não sei onde batem as lembranças hoje. Não sei se as leio mentalmente e as faço desaparecer ou se as leio com o coração e as faço ficar. Lembro-me de muitas situações como se estivessem a acontecer neste preciso momento. Neste preciso momento, sinto. Sinto o ar daquela manhã. Sinto o vento desfazer o meu cabelo, por sinal, bem arrumado. Sinto as minhas pernas trémulas. Sinto a tua presença. Sinto a tua respiração a aproximar-se. Sinto-te bem perto. Estás a chegar. Sinto os teus passos, conforme caminhas na minha direção. Sinto-te parar. Cumprimentas uma amiga e olhas-me. Viras a cara. E tudo o que sentia, tornou-se mais intenso. Estavas a negar-me. Mais uma vez. Ou talvez aquela fosse a primeira. E foi aí que me lembrei. Era a primeira vez que me negavas, porque em situações anteriores, era eu quem te negava. Estavas a vingar-te. Era isso que eu sentia. Até que vejo aproximar. Sinto a intensidade com que o teu corpo se aproxima e para junto a mim. Sinto o teu olhar preso no meu e não consigo desviar o momento. Sinto a tua mão no meu ombro. Sinto o teu sorriso. Sinto como me abraças e puxas fortemente contra o teu peito. Sinto os braços fracos. Sinto as lágrimas nos meus olhos. Sinto tudo cair-me aos pés. Estava nos teus braços e isso era tudo aquilo que eu poderia pedir. Sinto a lentidão com que nos afastamos e é aí que quebras o nosso silêncio. Não me perguntas nada sobre mim. Não me contas nada sobre ti. Falas sobre a tua amiga. O meu mundo para. Costumavas falar de mim. Lembro-me. Lembro-me de como me abraçavas dantes. Lembro-me de como viravas a tua atenção para mim. Ou simplesmente de como as palavras "senti a tua falta" te saíam naturalmente. Lembro-me de quando eras meu. E só meu. E não quero deixar-te ir. Quero voltar a abraçar-te. Quero poder sentir os teus lábios contra a minha bochecha novamente. Quero ver-te rir. Quero poder brincar contigo. Quero voltar a ser tua e que sejas meu. Quero voltar a olhar-te nos olhos. Quero, simplesmente, sentir a proximidade do teu corpo. Quero ver-te e saber que estás ali, por mim. Quero acordar amanhã e.... Suavemente, ergo a minha cabeça. Dói-me. Sinto dores de confusão, de desilusão, de força, de tristeza. A cabeça dói-me. Apoio-me nos cotovelos e percebo. Foi tudo um sonho. Foi tudo... um sonho. Então, ainda estarei em primeiro lugar na tua vida? Ainda serei aquela de quem irás sempre tomar conta? Ainda irás chamar por mim quando estiveres aflito ou triste? Deixo-me cair sobre a cama e encaro o tecto. Não passou de um sonho.

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