Custa tanto...
Não acho que alguém entenda. Não sei se quero que alguém entenda. Não sei se quero sequer entender. É das piores coisas que alguma vez pude sentir. É uma vontade de desistir. É saber que o nosso valor é reconhecido, mas não podemos fazer nada para que seja mostrado a um maior número de pessoas. É sentir que somos inúteis, no fim de uma luta com muito trabalho. Foram quatro meses de pesquisa. Foram quatro meses de escrita. Foram quatro meses de junção de ideias. Foram quatro meses de transmissão de pensamentos e ideias para papel. Foram quatro meses de trabalho árduo. E tudo isso para quê? Para no fim, ver tudo ser posto de lado, porque não sou como muita gente. Não sou um famoso. Não tenho palácios. Não sou ministro. Não sou de família rica. Não tenho as possibilidades para fazer as coisas acontecerem. Já alguma vez sentiram que todo o trabalho fora em vão? Orgulho-me daquilo que sou e das condições em que vivo. Nunca quis, nem quero ter mais do que aquilo que tenho. Custa estarmos a um passo daquilo que mais queremos e ter de esperar, porque existe algo em falta. Custa ouvir "... tem, de facto, muito interesse...", enquanto falam sobre o nosso sonho e pensar "E eu não posso..." Custa saber que estamos a um passo de fazer aquilo que mais queríamos na vida e não podemos. Não há nada que descreva o que se sente quando isto acontece. Tens a oportunidade. Recebeste um grande e gordo "Sim" e não podes porque a tua vida dá-te um grande e igualmente gordo "Não". É saber que nos dão valor e que nós não podemos dar continuidade a essa apreciação daquilo que fazemos. Custa tanto... Não há nada, nem ninguém, que consiga explicar aquilo que posso estar a sentir, neste momento. Sinto que, finalmente, deram-me o valor que eu queria que fosse dado. Sinto que, por ser de família humilde, não posso ter aquilo que as famílias mais ricas podem. Sinto que, infelizmente, no país em que vivo, dão mais valor ao dinheiro do que àquilo que as pessoas valem. Dão mais valor ao dinheiro do que àquilo que a pessoa consegue fazer. Tens de estudar para ser alguém, és obrigado a pagar. Tens de seguir os teus sonhos, tens de pagar. Tens de ser uma pessoa com uma vida normal, mas ainda és obrigada a pagar a casa para não viveres ao ar livre. Tens de ter água para sobreviver e ainda tens de pagar por ela. Onde é que vamos parar? Qualquer dia, as pessoas têm de pagar para abrir a porta de casa. Têm de pagar para ir a uma casa-de-banho. Têm de pagar para ir à praia. Onde vamos parar se derem mais valor ao dinheiro do que às pessoas?
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